sexta-feira, 5 de abril de 2013

  Esperava encostada no carro o seu pequenininho. Se projeto  de amor. Já faziam três anos e pouco que sua vida fora consumada. Três anos e meio desde que acordada confusa com o cheiro do sexo e suor espalhado no quarto. Três anos da carta rabiscada dizendo: "Me perdoe, eu te amo, mas tenho um casamento pra realizar. Fique bem" . A humilhação, o ódio. Quase enlouquecera. Junto com um psicológico instável e uma raiva que a consumia, anciãs e enjoos. Médico. Exames. Surpresa. Como dói pensar naquela criança. A amava e odiava no próprio ventre. Os pais se assustaram um pouco, assim como os amigos. Os primeiros não questionaram, era melhor do que a ideia complicada da adoção. Os Amigos, os protetores brigaram. Lembrava-se com perfeição do vidro que o conselheiro com ar de monstro verde quebrou ao ouvir o relato. A tristeza que cobriu o semblante do amigo-irmão. A obstinação de ambos em convence-la a contatar o infeliz para bancar toda e qualquer despesa. Não queria. Não admitiria que ele tocasse em seu tesouro. Foram nove meses difíceis, dividida entre o amor e o ódio. Aguentou firme, tanto a pena.. Ver aquela cor toddy fraco, a falta nítida de sobrancelha. Foi por os olhos no pequeno pacote e saber que viveriam eternamente com a imagem daquele amor perdido em sua vida. Mais valia  a pena. Quase o perdoava, ao agradecer pela mau caratismo dele ter trazido seu pequeno anjo. Quantas penas durante esses três anos  ? Quantas ? Os primeiros tombos, as primeiras broncas. O choro que só ela sabia cuidar. A dor de ser mãe sozinha, do sonho de um marido que a amasse e protegesse. Amasse o filho. Pouco soubera dele durante os anos. Ouvira uma suposta traição de ambas as partes do casamento que fora abafada para manter as aparências. A primeira vez que seu menininho perguntava porque a mãe era tão branca e ele "mais ou menos". Ela olhara fundo nos olhos e dizia: Tua cor reflete minha alma, Ygor. Minha alma é de café, a sua é de leite". Quando ele perguntara por que não tinha pai, porque o Tio Juan e o Tio Gu eram papais e ele não tinha. Ela abraçava e dizia que ele tinha sim, um pai muito legal, divertido, bonito. Mas que esse pai não crescera o suficiente pra merecer ve-lo. Que conversariam sobre aquilo outro dia. Aquela paixão de seu pequeno por Neston. Aquele amor pelo aparelho azul da Tia Lu. Aquele charme em seus olhos ora pequenos, ora grandes. Aquele gingado todo lindo ao dançar nas festas da família com os priminhos. Aquela teimosia e vitalidade digna de um bom escorpiano. Seus cabelos indecisos entre o liso e o crespo, entre o castanho claro e o castanho escuro. Mas o sorriso. O sorriso não era indeciso. Era o sorriso mais lindo, mais precioso de sua vida. O sorriso lhe voltara. Seu antigo sorriso lhe dera um lindo sorriso.
  As lindas perninhas corriam em sua direção, o rosto irradiando aquela luz tão única, os braços abertos. Abraçou as pernas da mãe, que o olhava com veneração. "Mamãe, deixa eu comer bolacha antes de jantar?" "Não." "Porque não?" "Porque você acha que não?" "Porque você não quer." "Basicamente".O pequeno ria. Fez que ia fugir, a mãe o segurou pela mochila, o carregou como um saco leve demais nas costas fingindo bater no bumbum enquanto ele se debatia. O colocou na cadeirinha no banco traseiro do carro. Ela entrou, ajustou o espelho pra ver seu .. seu menino.
 "Oooo mãaae"
 "O que é Ygor..?"
 "Quando eu vou poder ir na frente?"
 "Quando você ser grande.. "
 "Quando vou ser grande?"
 suspirava. "Ahn, meu nariz.. "

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