Como o escritor relata:
Ela chega do serviço cansada. Acende as luzes do pequeno apartamento, retrata com desânimo a bagunça dos cômodos. Tira as sandálias molhadas, joga a bolsa surrada no chão. Despe sem pudor o vestido, no caminho para o banheiro. Liga o chuveiro, se deleita com a água que escorre, se permite sentir depois do dia cansativo. Chora, suas fases corando com o calor do vapor. Desenha com o dedo no box do banheiro suas iniciais, se sente uma adolescente de novo. Olha para o vidro de pós barba que ele deixou, o abre e quando o cheiro chega a suas narinas desiste da ideia de passar em si mesma: não está pronta ainda.
Ao sair do banho, acende suas velas. Ouve o jazz gostoso que ele a ensinou a gostar, põe com cuidado o vestido que ganhou no último aniversário. Abraça o travesseiro dele, ouve a melhor nota do baixo na melodia que toca, chora. Bebe os últimos vestígios do vinho favorito, aquele que o fazia suspirar. Pensa em cozinhar o assado que ele adorava mas ela não via sentido. Nada fazia sentido. Existir não fazia sentido.
Como o escritor vivencia:
Ela chega do técnico ensopada. Abre a porta e repara a bagunça que os anjinhos dos irmãos deixaram na casa. Tira o tênis molhado e joga a mochila no chão da área. Se tranca no banheiro e vai despindo a calça jeans, a camiseta grudada no corpo. Liga o chuveiro pelando e queima a pele, solta um palavrão. O rímel suja o rosto enquanto escorre com a água, se agacha no chão e chora. Solta outro palavrão, se levanta, ensaboa o corpo com força, a pele arde. Esmurra a parede, o pai pergunta o que é, ela resmunga um nada. Olha para o frasco do óleo que um dia ele usou para fazer uma massagem, mas quando pensa em usar no corpo a lembrança vem com tanta força que ela afasta a ideia de um salto. Passa o rodo rápido e vai para o quarto, onde o irmão já dorme.
Se veste no escuro. Coloca o moletom da Gap que ganhou no último aniversário e seleciona a lista de reprodução no celular com o australiano excêntrico que marcou o namoro. Abraça o ursinho que ganhou, ouve a melhor frase da música ">The successful removal of you would probably kill me too<". Chora. Vai na cozinha, toma um copão de neston, pensa em abrir um pacote de waffer mas ela nem gosta, não faria sentido. Nada fazia sentido. Existir não fazia sentido.
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Se eu não acordar amanhã quero dizer que foi um prazer IMENSO ter o pessoal do senai nesses dois últimos anos na minha vida. Se eu não acordar amanhã: Pai, seja menos mandão. Se eu não acordar amanhã alguém pinte meu cabelo antes de me cremarem, como planejado ? Tati, vc sabe os detalhes, preferencia pra azul ok ? Se eu não acordar amanhã: Tatiane Dias Cunhas, obrigada garota, por ter me concedido um pouquinho dessa inocência não medida e dessa curiosidade pervertida nesse tempo, por ter sido minha melhor amiga. Se eu não acordar amanhã: Gustavo, cuidado moleque ! Sei que ta feliz com tudo dando tão certo e a princesadosteusolhos estando apaixonada por você, mas não estrague sua amizade se ainda não tem certeza do que sente; não seja como ele, pense BEM antes de dizer certas coisas. Se eu não acordar amanhã, Luana e Laís, eu amo tanto vocês e morri sentindo tanto a falta de um carinho de irmãs. Se eu não acordar amanhã.. Vou partir insatisfeita, por ter pensado que o amor existia, ter sentido que ele é só uma piada de mal gosto e não ter tido tempo pra dar a volta por cima. Se eu não acordar amanhã, da maneira errada e a cada dia mais destrutiva, eu morri ainda amando ele.
Se eu morrer amanhã, morrerei: sentida.