Ouve a cantoria do filho no chuveiro. Ahn, aquela foi difícil. Sabia que só tendia a piorar mas a reação de seu pequeno foi bem melhor do que a esperada..enfim... Revisaria uns briefings semi prontos, abriu o notebook, procurou a agenda com os emails privados do novo cliente, sua secretaria havia anotado em algum lugar.. Seu coração parou. Mãos tremeram, respiração falhou. Aquilo não podia estar acontecendo. A lembrança da secretaria dizendo que tinha um rapaz querendo falar com ela, com roupas esportivas e se referindo a um assunto pessoal.. O dia seria corrido, a pessoa não quis fornecer o nome, a dispensou pedindo para deixar recado que ela retornaria quando (e se) tivesse tempo. O post-it amarelo com uma letra técnica constava um número de telefone e o recado:
"Tentei te preparar. Você não tinha o direito de me esconder isso.
P.B"
Aquilo não podia estar acontecendo Direto na caixa postal na primeira tentativa, depois só chamando. Seus nervos gritavam. Ygor preparava a pipoca e os sucos ritualísticos enquanto a mãe tomava banho. Às tentativas frustradas de ligação a preencheram de uma mini esperança de que tudo fora um engano terrível. Enfiou a cabeça no chuveiro, se deixou seduzir pela água morna, lembranças agudas a perfuraram sem pena. Adolescente, as marcas no pescoço.. Seu corpo se contraiu.. Às fugidas ao banheiro escolar, aquela aparição no seu apartamento a dez anos, os lençóis, a pressa, o resultado que habitou em seu ventre. Bum, a raiva a tirou do estupor que o desejo a levará, o medo, como ele podia ter a audácia de procurar seu menino na escola dele? Desligou o chuveiro, se enrolou na toalha, a luz do celular refletiu no espelho. Três ligações perdidas, era ele.
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